
Era uma manhã nublada.
Ouviam-se os carros passando pelas poças d’agua deixadas pela chuva na noite anterior. As pessoas apressadas corriam contra o relógio em busca da pontualidade e o clima, ah o clima, só se podia sentir aquela brisa passar pelo corpo gelando até o ultimo sentimento de nossos corações.
Tudo começou quando ela passou a contradizer todos, digo, todos mesmo: os pais, professores, amigos, a vida. Passou a não acreditar em mais nada. Tudo o que ouvia era apenas mentiras e enganações, tudo o que via era ignorância e hipocrisia. Ela passou a viver de modo rebelde.
Todos ao seu redor começaram a dizer: é só uma fase, logo passará e ela voltará a ser aquela menina ingênua e angelical, de cabelos longos e sorriso doce. Mas, infelizmente, não foi só uma fase.
Quando a menina fez 16 anos, cortou o cabelo bem curto, colocou um pircing na língua, fez uma tatuagem, fumou seu primeiro cigarro e tomou seu primeiro porre – tudo o que o manual de “como ser rebelde” dizia para se fazer.
Lucy, esse era o nome dela, sempre foi uma menina meio solitária. Filha de pais médicos passava muito tempo sozinha em seu mundo. Como era filha única, aprendeu a brincar com tudo o que via: bonecas e sucatas.
Passara mais tempo de sua infância com a avó do que com os pais. Eles viviam ocupados e, para suprir o tempo perdido, a enchiam de brinquedos, algo que, para ela, não substituía a ausência deles em seu coração.
Aos 12 anos, no seu aniversario, ganhou uma câmera fotográfica e a partir daquele momento, fotografava tudo em sua vida. Seu quarto era repleto de fotos de ruas, prédios, pessoas, animais, mas principalmente paisagens. Lucy era fascinada pela beleza da natureza, o sol, as lua, as estrelas...
A sua vida não era algo animador, ia pela manha para a escola e a tarde sempre tinha alguma tarefa para fazer. Fez, durante um período, aulas de alemão, de computação, teatro, mas nada conseguia pegar a sua atenção igual a fotografia e os livros; esqueci de comentar, Lucy era fascinada por livros.
Certo dia, quando Lucy estava lendo um livro sobre frases e pensamentos, uma frase se destacou durante a sua leitura: “Tudo está fluindo. O homem está em permanente reconstrução; por isso é livre: a liberdade é o direito de transformar-se”. E foi a partir daí que tudo na vida dessa menina começou mudar.
Ela não soube explicar para os psicólogos que seus pais fizeram-na consultar, ou para a psicoterapeuta da sua escola, quando essa mudança começou: não sabia se sua mente já estava em constante mutação ou se a frase fez com que ela despertasse, mas de um a coisa Lucy sabia, ela jamais voltaria a ser aquela menininha.
Suas atitudes sobre reprimir certos pensamentos e opiniões estavam extintas de sua vida: passou a dizer tudo o que pensava, sem medias as palavras. Começou a andar pelas ruas sem destino, a ler cada vez mais sobre os mistérios do mundo, a se questionar sobre religião e sobre o que aprendia na escola; passou a ver o universo sobre outros olhos.
Nada a tirava da cabeça sobre o porquê: Por que devo fazer isso? Por que não posso fazer aquilo? Por que eu sou assim? Ficou inistindo no como: Como isso ocorre? Como você sabe disto? Ah, e também se questionava sobre o quem: Quem inventou isso? Quem sou eu? Quem é você?
Tantas perguntas começaram a deixar Lucy meio paranóia. Ela já não conseguia filtrar seus pensamentos do subconsciente. Seu superego estava tão reprimido que suas ações mais ocultas passaram a transparecer: seus medos e aflições, seus desejos, a violência, tudo passou a ser constante e intenso na vida de Lucy.
Certo dia, quando Lucy estava no seu mundo, no seu momento inconsciente algo veio a sua mente: Por que não testo meus limites? Pegou um estilete e começou a se cortar, devagarzinho, fazendo com que o sangue se espalhasse calmamente e dolorosamente sobre o seu corpo. Aquela dor, aquele ódio que ela sentia, foi se misturando com prazer e ela ficou durante algum tempo naquele momento de êxtase. Essa ação foi se repetindo durante algumas semanas até que seu corpo ficou cheio de cicatrizes e aquele prazer simplesmente desapareceu.
Os pais de Lucy começaram a perceber que a menina se escondia embaixo de roupas pesadas e compridas até mesmo nos dias em que o sol está forte e resolveram levar uma conversa seria com ela. Foram francos e sinceros, dizendo que já haviam passado pela adolescência, mas o modo que Lucy estava levando esse período de “descobertas” estava realmente os preocupando. Não sabiam o que podia fazer para ajudá-la, já que aquilo que ela sentia era algo só dela, mas disseram que estariam a todo o momento ao seu lado para apóiá-la.
Lucy sem dar ouvidos aos pais, disse que nada estava passando com ela: só estou com vergonha do meu corpo, não é nada – disse a menina. Mas ela sabia, la dentro, que nada estava bem. À noite, quando os pais foram trabalhar no plantão do hospital, ela pegou um pouco de dinheiro, vestiu uma blusa de frio e resolveu sair para uma caminhada.
Ela já estava próxima a rua onde sua avó morava quando foi abordada por um homem que perguntou o que uma menina tão bonita estava fazendo na rua aquela hora. Lucy apenas o ignorou e seguiu a sua caminhada, porém, quando cruzou a esquina, lá estava o rapaz a fixando com um olhar sádico e maldoso.
- Ei, menina, você não respondeu: O que esta fazendo há esta hora na rua? Nunca te disseram que quem anda na rua nesse horário pode encontrar com alguns monstros? – E rio de forma assustadora.
Uma descarga de adrenalina e medo percorreu todo o corpo de Lucy e de modo estranhamente simpático ela respondeu que estava a procura de aventura, se ele conhecia algum lugar onde se podia esquecer um pouco sobre a vida, ele poderia levá-la.
- Uau, então a menininha ai está afim de uma diversão... Você não tem medo do que pode ocorrer contigo? Ok, te levarei para um lugar onde a diversão rola a solta, mas é pegar ou largar: quando chegarmos la, não tem como dar para trás.
Na hora, de forma totalmente inconseqüente, Lucy disse que aceitava e ela foi caminhando silenciosamente com aquele homem, sem saber para onde iria e o que iria ocorrer com ela.
Passado cerca de 15 minutos de caminhada, Lucy se deparou com um lugar parecido com uma antiga fabrica abandonada, mas lá dentro, podia se ouvir risadas e barulhos indecifráveis.
- Chegamos gracinhas. Seu playground está ai dentro. Entre e sinta-se à vontade em aproveitar o que a vida nos deu de melhor.
Mesmo sentindo um desespero terrivelmente grande, Lucy abriu aquela porta velha e enferrujada e entrou. O que estou fazendo comigo mesma?
Ao olhar para dentro, podia enxergar diversas garrafas no chão, maços de cigarro, injeções, roupas rasgadas, alguns colchões velhos, e bem ao fundo do saguão, ela conseguia ver sombras alguns homens.
-Trouxe companhia – disse o homem
- Já era hora, estou cansado de ser o único a trazer alguns doces para nós.
O homem segurou o braço de Lucy e a levou para próximo daquelas pessoas. Uma luz bem fraca iluminava o lugar e ela conseguiu enxergar com certa dificuldade, o rosto daquele homem que segurava tão firme o seu braço. Ele devia ter cerca de 50 anos, já estava calvo, vestia uma jaqueta rasgada e suas calças estavam sujar e velhas. Seu hálito fedia a pinga e suas mãos estavam molhadas de suor. De alguma forma, ela não se sentia assustada com aquele homem e sim com aquele lugar: aquelas pessoas, todas escuras por conta da luz fraca faziam com que Lucy se questionasse quem eram elas e o que elas faziam ali.
- Me de essa pequena, Tom, já te trouxe varias meninas, agora é minha vez de poder aproveitar!
- Não! Eu quero essa para mim. Ela é minha! Eu a achei, ela é minha, só minha!
Um estalo foi dado na cabeça de Lucy e ela percebeu no que ela tinha se metido; na certa, ela seria estuprada por aquele homem que, pela conversa, se chamava Tom, e aquelas pessoas deviam ser moradores de rua, estupradores ou criminosos.
Lucy, sem se perguntar duas vezes, puxou o braço e saiu correndo mas, por conta de escuridão, escorregou em alguma coisa e caiu no chão, em cima de algumas garrafas que ali se encontravam. Tudo se escureceu ainda mais, uma tontura percorreu seu corpo, e tudo foi ficando longe, longe, longe.....
Ao abrir os olho, Lucy sentiu uma forte dor na cabeça, e foi olhando ao seu redor: conseguia ver algumas paredes de tijolos, muitos desenhos e frases sobre elas, via um telhado alto, pontiagudo e enferrujado e ao teu lado viu um homem, que não parecia estranho, olhando-a curiosamente.
-Você esta bem? – Perguntou o homem.
A menina respondeu que estava com uma dor muito forte na cabeça, mas que não importava, ela só queria saber onde estava.
-Ontem você me pediu diversão e ontem a noite, era para ser a nossa noite divertida, mas você resolveu fugir, escorregou, caiu e desmaiou. Não deixei ninguém encostar em você, porque você é minha, e vou cuidar de você até você melhorar.
Lucy se assustou com as frases “nossa noite divertida”, “você é minha” e foi ai que ela percebeu que um pedófilo havia pegado ela. Uma idéia passou pela sua cabeça e ela fingiu um desmaio. Ouviu o homem saindo correndo, provavelmente iria pegar alguma coisa para tentar fazê-la acordar, e cuidadosamente ela abriu um pouco os olhos: olhou ao redor e viu que não havia ninguém e em um movimento rápido, levantou e saiu correndo.
Enquanto corria, ela não olhou para trás, apenas ouviu um berro e durante algum tempo ouviu alguns passos pesados correndo atrás dela, mas Lucy correu tanto, como ela nunca havia corrido na sua vida, e após um tempo indeterminado ela parou. Olhou para trás, não viu ninguém e percebeu que estava em uma rua até que movimentada. Uma senhora que passava por ali perguntou a menina se estava tudo bem, se ela havia sido assaltada, mas Lucy apenas se calou: ela não sabia responder o que tinha acontecido com ela, se ela estava bem, se estava ferida, se havia sido estuprada. Olhou para o seu corpo, suas calças e blusa estavam imundas e fedendo a urina, seu braço estava cortado mas não sabia se o corte era da noite passada ou de seus momentos de “descoberta”. Agradeceu a mulher e saiu andando, ainda com as mãos tremulas e com o coração acelerado.
Cerca de 10 ou 20 minutos andando de forma totalmente desgovernada, Lucy conseguiu identificar o nome de uma rua conhecida e percebeu que estava próxima de sua casa. Começou a correr e após uns 2 quarteirões ela avistou a sua casa.
Chegando a sua casa, Lucy viu a sua mãe deitada no sofá, dormindo com uma foto da filha entre os braços. Seu pai, já devia ter ido trabalhar, como deduziu Lucy. Ela chegou próximo da mãe, beijou-lhe o rosto e perguntou se podia se deitar ali. A mãe começou a chorar desesperadamente, abraçou a menina e antes de perguntar qualquer coisa a filha, elas ficaram ali durante longas horas abraçadas no silencio.
As semanas se passaram, a rebeldia foi se acalmando, a rotina voltando a ser a mesma até que em um dia de sol, aqueles dias de verão em que se tem a sensação de que o sol irá engolir tudo o que é vivo, Lucy estava voltando da escola e quando foi atravessar o semáforo ela viu um homem que já havia visto antes. Um flash passou pela sua mente e ela reconheceu aquele homem, era ele, o homem que havia lhe prometido diversão. Lucy ficou desesperada, um medo que ela nunca havia sentido antes passou por todo o seu corpo e na hora de atravessar, não percebeu que o farol já havia aberto e em frações de segundo foi atropelada por um carro que vinha em alta velocidade e morreu.
O homem apenas olhou, pegou um papel sujo que tinha no bolso e escreveu alguma coisa. Ao redor da menina, um monte de gente berrava por ajuda, curiosos olhavam com atenção aquele corpo estendido no chão. O homem passou, jogou o papel próximo da menina e foi embora, seguindo a sua vida.
No papel se podia ler:
“Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.”
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